Uma proposta protocolada na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) na última quarta-feira (18) pede ao governo Lula que impeça a entrada de militares israelenses no Brasil como turistas.
A indicação formal, endereçada ao presidente Lula da Silva (PT) e de autoria do deputado estadual Hilton Coelho (PSOL), argumenta que muitos desses visitantes podem ter participado de operações militares na Palestina e no Líbano, classificadas na justificativa como “genocídio”.
O texto menciona que localidades baianas como Morro de São Paulo, Boipeba, Maraú, Itacaré, Serra Grande e Ilhéus se tornaram destino frequente para integrantes das Forças de Defesa de Israel (IDF) após o período de serviço obrigatório.
O parlamentar alega haver relatos de tensões e até de supostas agressões envolvendo militares israelenses contra ambulantes, moradores e outros visitantes que se manifestam contrariamente às ações de Israel. Para ele, permitir o lazer de supostos envolvidos em “massacres civis” seria incompatível com os princípios da política externa brasileira.
A justificativa se ancora no Artigo 4º da Constituição Federal, que preconiza a defesa da paz, a prevalência dos direitos humanos e o repúdio ao terrorismo nas relações internacionais, além da Lei nº 13.445/2017, que autoriza a negativa de entrada a estrangeiros envolvidos em crimes internacionais ou violações de direitos humanos.
A sugestão inclui medidas como a identificação pela Polícia Federal de turistas israelenses que tenham atuado em Gaza e no Líbano, o impedimento imediato de ingresso no país e uma articulação diplomática para evitar que o Brasil sirva como refúgio ou destino de lazer para pessoas envolvidas em crimes de guerra.
Reações e críticas
A iniciativa provocou reação imediata de organizações pró-Israel. André Lajst, presidente-executivo da StandWithUs, classificou a tentativa de barrar militares israelenses no Brasil como discriminação.
Em vídeo nas redes sociais, ele lembrou que a Lei nº 7.716/1989 tipifica como crime o preconceito de nacionalidade, sujeito a multa e prisão. Lajst também ressaltou que o serviço militar em Israel é obrigatório para todos os cidadãos — judeus, árabes, drusos e cristãos — e abrange não apenas as forças armadas, mas também corpos de polícia, serviço de prisões, ambulância e áreas educacional e de saúde. “Todas as pessoas que em Israel vão ser proibidas de entrar no Brasil porque prestaram serviço militar? Não tem sentido”, afirmou.
Protesto em Itacaré
A movimentação na Alba ocorre na esteira de um protesto ocorrido em 14 de março em Itacaré, que acabou em confusão. De acordo com relatos da Polícia Militar, houve duas manifestações naquele dia. Uma delas, pacífica, reuniu comerciantes, taxistas e trabalhadores do setor turístico que defendem a vinda de israelenses.
A outra, organizada pelo próprio deputado Hilton Coelho com a participação de movimentos sociais e do ativista Thiago Ávila, foi contrária à presença de turistas israelenses e ocorreu na Praça das Mangueiras, na Pituba.
Vídeos que circularam nas redes mostram um tumulto no qual manifestantes gritavam “Free Palestine!” e turistas israelenses se envolveram em discussões e princípio de briga. A Polícia Militar interveio e, segundo o Correio, três israelenses que resistiram à abordagem foram detidos, prestaram depoimento e liberados em seguida.
Xenofobia e posição da comunidade judaica
André Lajst condenou o protesto, afirmando que ele beira o antissemitismo, uma vez que o alvo seria a nacionalidade dos visitantes. Ele ainda destacou a importância econômica do turismo israelense para a Bahia, com cardápios em hebraico, guias capacitados e estabelecimentos que se adaptaram ao público.
A Sociedade Israelita da Bahia também se manifestou, em nota, acusando os organizadores da manifestação de incitar “preconceito racista, xenofobia e discórdia”. A entidade afirmou que os atos pró-Palestina tiveram baixa adesão e que os manifestantes “apenas odeiam o povo judeu”, enquanto parte dos moradores e visitantes demonstrou apoio aos turistas israelenses.
Economia local e tensões latentes
A presença de militares israelenses que viajam ao Brasil após cumprir o serviço militar obrigatório já faz parte da rotina do litoral baiano. Comerciantes e empresários veem no fluxo um importante impulso econômico, com pousadas e restaurantes oferecendo cardápios em hebraico e até atendimento personalizado.
Em contrapartida, moradores de localidades como Itacaré e Morro de São Paulo relatam episódios de agressão, ruídos excessivos e comportamentos que consideram desrespeitosos, o que alimenta a tensão entre a dependência econômica e o desgaste social. Com: Guiame.













